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Capital e transações

M&A no 1S26: menos deals, mais valor e a venda da empresa familiar

KPMG: 610 transações e R$ 195 bi no 1S26, com volume em queda e valor em alta. O que isso exige de uma empresa familiar que prepara a venda.

Autoria: Equipe Veritum

Publicado em

Aperto de mãos entre duas pessoas em um escritório, com o ambiente de trabalho desfocado ao fundo.
Imagem de capa.

O mercado brasileiro de fusões e aquisições fechou o primeiro semestre de 2026 com um recado claro: há menos operações, mas mais dinheiro por operação. Segundo a Pesquisa Trimestral de M&A da KPMG, foram 610 transações no semestre, que movimentaram R$ 195 bilhões. A quantidade caiu 35% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto o valor transacionado cresceu 22,3%.

Para o empresário de médio porte que pensa em vender, no todo ou em parte, esse cenário tem uma tradução prática. Compradores mais seletivos olham com mais cuidado para a qualidade do ativo, dos números e da estrutura. E a empresa familiar que chega ao processo desorganizada tende a pagar essa conta no preço.

O retrato do semestre, segundo a KPMG

Os principais números do levantamento, divulgado em agosto de 2026:

  • 610 transações e R$ 195 bilhões no primeiro semestre, com queda de 35% na quantidade e alta de 22,3% no valor.
  • Segundo trimestre: 292 operações, ante 318 no primeiro, e R$ 99 bilhões, ante R$ 96 bilhões.
  • Concentração em megadeals: operações acima de R$ 1 bilhão responderam por mais de 85% do valor do semestre.
  • Capital estrangeiro: 191 operações cross-border (queda de 18%), mas R$ 102 bilhões movimentados, alta de 153%. As operações domésticas somaram 419 transações e R$ 93 bilhões, com quedas de 40,6% na quantidade e de 22% no valor.
  • Perfil do comprador: investidores estratégicos movimentaram R$ 159 bilhões (alta de 20,6%), e fundos de private equity e venture capital, R$ 36,7 bilhões (alta de 30,5%), mesmo com forte retração no número de negócios.

Duas ressalvas ajudam a ler esses dados. Primeiro, a KPMG mudou a metodologia nesta edição, passando a usar transações anunciadas, o que pede cautela em comparações longas. Segundo, o valor está muito concentrado em poucas operações grandes, com destaque, segundo a pesquisa, para mineração e energia. A própria pesquisa descreve o comportamento do investidor como “mais criterioso”, com prioridade para empresas com escala, ativos de qualidade e potencial de geração de valor.

O que “mercado seletivo” significa para o mid-market

O empresário que vende uma empresa de R$ 50 milhões ou R$ 200 milhões não disputa espaço com megadeals de mineração. Mas enfrenta o mesmo comportamento de comprador: menos disposição para assumir incertezas, diligências mais profundas e mais ajustes de preço quando algo não fecha.

Em um mercado com menos operações, cada processo que trava na diligência custa tempo e poder de negociação. Quem chega com números reconciliados, estrutura societária limpa e uma tese de crescimento sustentada por fatos atravessa essa fase com menos desconto.

O caso Solví e Amplitec/Essencial

Um exemplo recente vem do setor de resíduos. Conforme comunicado publicado em 22 de setembro de 2026 no espaço patrocinado PressWorks, do Valor Econômico, a Solví Essencis Ambiental celebrou contrato para adquirir 100% das quotas da Amplitec Gestão Ambiental e da Essencial Central de Tratamento de Resíduos, empresas de um mesmo grupo familiar do interior de São Paulo. A reportagem do Valor de 18 de setembro também registrou a operação por R$ 115 milhões.

Os pontos divulgados:

  • Enterprise value de R$ 115 milhões, do qual serão deduzidas as dívidas financeiras e operacionais das sociedades e os ajustes usuais previstos nos documentos da operação.
  • Fechamento sujeito a condições precedentes.
  • O ativo: um aterro em Rio das Pedras (SP), com área ampliada ao longo dos anos para cerca de 1 milhão de metros quadrados e capacidade licenciada que passou de menos de 100 para até 1.000 toneladas por dia, com processo para ampliação até 2.500 toneladas diárias.
  • A história: um negócio familiar de mais de duas décadas, que começou quando o fundador vendeu o carro da família para comprar o primeiro caminhão de lixo, em Piracicaba.
  • A motivação: segundo a ADVISIA Investimentos, assessora financeira dos vendedores, a venda não ocorreu por dificuldade operacional, mas porque a próxima fase de crescimento exigiria uma escala maior de investimento.

Sem acesso aos documentos da transação, não cabe especular sobre múltiplos ou condições. Mas o caso, como divulgado, ilustra três lições úteis para qualquer venda de empresa familiar:

  1. Enterprise value não é o cheque do vendedor. Dívidas, itens equivalentes a dívida e ajustes de capital de giro saem do valor da empresa antes de chegar ao preço das quotas. Quem não conhece a própria “ponte” entre EV e valor do equity negocia no escuro.
  2. Licenças, terrenos e capacidade são ativos de valor. O que o comprador paga está ligado ao que pode ser comprovado: licença vigente, área registrada, processo de ampliação documentado.
  3. Vender em momento de força muda a conversa. Uma decisão tomada para financiar a próxima etapa, e não por necessidade, dá ao vendedor tempo para preparar a empresa e escolher o comprador.

Due diligence em empresa familiar: onde o valor se perde

Números

O comprador vai reconstruir o resultado recorrente. Despesas pessoais lançadas na empresa, pró-labore fora de mercado, contratos com partes relacionadas e receitas não recorrentes precisam estar identificados e explicados. Um EBITDA ajustado que não se reconcilia com a contabilidade vira desconto ou mecanismo de retenção de preço.

Estrutura societária e ativos

É comum, em grupos familiares, que imóveis operacionais estejam na pessoa física ou em outra empresa, que licenças estejam em nome de uma sociedade diferente da que opera, ou que haja quotas em condomínio entre herdeiros. Cada um desses pontos precisa ser resolvido, ou ao menos mapeado, antes da primeira conversa com o comprador.

Governança e dependência do fundador

Relacionamentos com clientes, fornecedores e poder público concentrados em uma pessoa são risco para quem compra. Contratos formalizados, gestão com segunda linha e um plano de transição reduzem essa percepção.

Tributário, trabalhista e regulatório

Passivos parcelados, contingências fiscais e trabalhistas e pendências ambientais ou regulatórias costumam ser tratados como dívida ou cobertos por retenções e garantias. Projeções que ignoram a transição do IBS e da CBS também tendem a ser questionadas.

Como organizar a casa antes de ir ao mercado

Um roteiro prático para 12 a 24 meses antes de uma venda:

  1. Contabilidade confiável e, se possível, auditada, com demonstrações que conversem com o EBITDA apresentado.
  2. Vendor due diligence, para encontrar os problemas antes do comprador e decidir o que corrigir, divulgar ou precificar.
  3. Mapa societário e de ativos, com separação do que é operacional e do que é patrimônio da família.
  4. Data room organizado com contratos, licenças, matrículas, certidões e histórico de contingências.
  5. Narrativa sustentada por evidências: capacidade, licenças, contratos de longo prazo e plano de investimento.
  6. Estrutura do vendedor e tributação do ganho analisadas antes da carta de intenções, incluindo o efeito de distribuições de lucros pré-fechamento.
  7. Mecanismo de preço entendido pela família: locked box ou ajuste no fechamento, earn-out, escrow e garantias.
  8. Alinhamento entre sócios e herdeiros sobre preço mínimo, permanência na gestão e destino dos recursos.

Fechamento

O primeiro semestre de 2026 mostrou um mercado que paga por qualidade e pune incerteza. Para a empresa familiar de médio porte, isso é uma boa notícia condicionada: há comprador, inclusive estrangeiro e estratégico, para ativos bem estruturados, desde que a organização chegue antes da negociação.

A Veritum apoia empresas e famílias empresárias em contabilidade, tributos, governança, capital e M&A, da organização dos números à estrutura societária e à preparação para a diligência, para que a decisão de vender seja tomada com clareza e sem deixar valor na mesa.

Conteúdo com finalidade informativa, com base em fontes públicas verificadas até setembro de 2026. Os dados da operação citada são os divulgados publicamente pelas partes e pela imprensa; este texto não substitui análise individualizada.

Fontes

Para organizar a decisão com o time, veja também Capital e transações.

Fontes consultadas